O que vou lhes contar aconteceu comigo em 1998. Era novembro. Na época tinha 28 anos de idade. Trabalhava por conta como eletricista para pequenos empreiteiros em Porto
Alegre e região.
Alugava um apartamento no sétimo andar de um velho edifício de oito andares, situado numa
zona muito perigosa de Porto Alegre.
E percebia o mal ali. O lugar estava saturado de coisas ruins. O edifício possuía muitos apartamentos. Muitos estavam vazios. Motivos eu não sabia. Entre os locatários haviam muitos sujeitos mal encarados. Com exceção do senhor Otávio de 67 anos, que era o zelador. Seu apartamento ficava no andar térreo. Seu Otávio estava sempre disposto. Antes de seu horário de trabalho que começava as oito e meia, tinha o hábito de sair bem cedo pra comprar pão e o jornal Correio do Povo na padaria da rua de trás. Praticava a leitura de seu jornal matinal na sala de espera do prédio, enquanto tomava um cafezinho preto. Era viúvo há cinco anos. Tinha dois filhos e seis netos, mas todos morando na Europa. Antes de se tornar zelador, e se mudar para aquele prédio propriamente dito, seu Otávio comandava um barco pesqueiro nos tempos de outrora. Durante o dia costumava recolher o lixo dos apartamentos, varria e passava um pano úmido nos corredores. Deixava tudo brilhando. E distribuía as correspondências nos apartamentos. Muitas vezes foi insultado por algum morador desnaturado que não gostava dessa cortesia da parte dele. Pois, cada morador deveria pegar sua correspondência. Outros reconhecendo seu mérito insistiam em lhe dá uma molhadura, mas ele negava em receber. Contentava-se com seu salario de zelador. E todos os meses o dinheiro de sua aposentadoria ele depositava no banco.
E percebia o mal ali. O lugar estava saturado de coisas ruins. O edifício possuía muitos apartamentos. Muitos estavam vazios. Motivos eu não sabia. Entre os locatários haviam muitos sujeitos mal encarados. Com exceção do senhor Otávio de 67 anos, que era o zelador. Seu apartamento ficava no andar térreo. Seu Otávio estava sempre disposto. Antes de seu horário de trabalho que começava as oito e meia, tinha o hábito de sair bem cedo pra comprar pão e o jornal Correio do Povo na padaria da rua de trás. Praticava a leitura de seu jornal matinal na sala de espera do prédio, enquanto tomava um cafezinho preto. Era viúvo há cinco anos. Tinha dois filhos e seis netos, mas todos morando na Europa. Antes de se tornar zelador, e se mudar para aquele prédio propriamente dito, seu Otávio comandava um barco pesqueiro nos tempos de outrora. Durante o dia costumava recolher o lixo dos apartamentos, varria e passava um pano úmido nos corredores. Deixava tudo brilhando. E distribuía as correspondências nos apartamentos. Muitas vezes foi insultado por algum morador desnaturado que não gostava dessa cortesia da parte dele. Pois, cada morador deveria pegar sua correspondência. Outros reconhecendo seu mérito insistiam em lhe dá uma molhadura, mas ele negava em receber. Contentava-se com seu salario de zelador. E todos os meses o dinheiro de sua aposentadoria ele depositava no banco.
Em seu apartamento, havia um pequeno pátio nos fundos, praticamente
era o único apartamento que possuía quintal. Ali ele havia feito uma pequena
horta, onde plantava de tudo. Desde chás ate hortaliças. E sempre que alguém adoecesse a família
recorria a ele.
Voltando ao meu caso. Depois de uma semana muito cansativa, numa
sexta-feira, finalmente havíamos conseguido entregar uma das minhas obras, num
total de três. Paguei a Maneco o salario de sua semana e o deixei em sua casa,
em Gravataí. Muito longe por sinal. Mas, como Maneco era minha equipe, eu o
valorizava.
Planejava naquele fim de semana fazer uma viagem ate a
chácara de meus pais na pequena cidade de Mormaço, cidade vizinha de Soledade.
Pretendia sossegar-me um pouco e pensava em procurar algumas terras à venda
pela região.
Naquela sexta-feira, após entrar na garagem do prédio onde
eu morava, guardei o carro e me dirigi até o elevador. Percebi que ele estava parado
no sétimo andar. Por coincidência era o meu andar. Achei que fosse algum
vizinho, sei lá. Pois havia mais três moradores além de mim. Após quase três
minutos de espera finalmente o elevador desceu. Já estava ficando impaciente, por
pouco não fui pela escada, já que queria tomar uma ducha e comer alguma coisa, pois
estava morto de fome.
Quando o elevador abriu, me deparei com o meu vizinho Carlão
do apartamento de frente ao meu. Não havia me dado conta de que estava bloqueando
sua passagem. Civilizado, quis cumprimenta-lo e sair do seu caminho, mas antes
que isso acontecesse ferozmente o cara esbarra em mim atravancando caminho pra
sair do elevador e se dirige para a garagem. - Maldito! – Pensei.
E com o cantar dos pneus pude averiguar que ele havia saído do
edifício. Após passar por aquele atrito físico com meu vizinho subi para o meu apto.
Tranquei a porta. Deixei a bolsa com
minhas roupas do serviço em cima do sofá. Coloquei a chave do carro no barzinho
de centro. Depois fui para o banheiro tomar uma ducha. Mais tarde, preparei um
jantar. Liguei o pequeno televisor colorido que ficava sobre o guarda-louça. Minutos
depois estava jantando enquanto assistia o telejornal.
Mais tarde fui pra sala continuar a leitura de um livro recém-comprado.
Sentei-me no meu velho sofá de apenas um lugar da marca Simbal Florença em tecido
Suede que havia adquirido em um brick na Avenida João Pessoa. Já era umas dez horas da noite. Estava quente.
Então liguei o ventilador que ficava no canto da sala. Sentei-me naquele sofá,
que por sinal sempre muito confortável, muito pratico, se tivesse um banquinho
à frente para poder esticar as pernas e arriar os pés, seria perfeito!
Volta e meia minha leitura era interrompida pelo barulho da
rua a frente do prédio. A janela do meu quarto ficava de frente pra essa rua.
Havia alguns bares noturnos que funcionavam nela, onde eram frequentados por
todo o tipo de indivíduos. Podia ouvir brigas, tiros e sirenes quase todas as
noites.
Eu pretendia me mudar dali o mais rápido possível e também
aconselhava seu Otávio a fazer o mesmo. Desejava viver num lugar pacato assim
que eu tivesse condições financeiras. De preferencia me mudar para uma chácara
no interior. Criar umas galinhas e quem sabe ter uma vaquinha de leite.
Cultivar algumas hortaliças. Essas coisas que se pode fazer num sitio. Já
estava cansado de viver na cidade. Queria tranquilidade.
Um pouco irritado com aquele barulho acabei desistindo de
ler o livro. Terminei indo para meu quarto, liguei o radio bem baixinho, pois o
único ruído que me animava era o do meu pequeno radio a pilha. Reverenciava a
programação noturna da radio gaúcha. Depois desliguei a lâmpada e fechei os
olhos ideando meu roteiro do dia seguinte, pois pretendia passar bem cedo no
Tumelero da Assis Brasil pra orçar umas tintas, pois me mudaria dali em breve e
teria que entregar o apto pintado.
No dia seguinte.
Despertei com a sensação de estar ouvindo trovões. Apesar de
ter tido uma excelente noite de sono, fiquei preocupado com a possível chuva
pra aquele dia. Por que o para-brisa do meu carro estava com problemas. Olho no
relógio e percebo que já são sete e vinte da manha. Dou um pulo de minha cama e
dou uma espiada na janela do quarto e noto que o céu estava sombrio, com nuvens
escuras e muitos relâmpagos para as bandas de Viamão e vinham para o lado de
Porto Alegre.
Levei o radio pra cozinha, pois quase que diariamente
durante anos da minha vida tinha o habito de ouvir a radio Guaíba no café da
manha. Então mal havia colocado a chaleira de água no fogão quando ouço a
campainha do Carlão tocar. Fiquei em silencio, por alguns segundos. Mas não
resisti e fui ate a minha porta pé por pé espiar pelo olho magico. Era o Sr.
Luiz, o sindico. De todos os síndicos, aquele da ocasião ninguém no prédio
gostava. Pois o homem estava sempre fechado. Era incontestável.
Carlão parecia não estar em casa, então o sindico olha pra
minha porta por alguns segundos, mas decidiu ir embora. Ufa! Pensei. Visto que sempre
que ele vinha ate a porta de um morador era pra fazer reclamações ou cobrar
dinheiro. Ainda bem que eu não havia ligado à lâmpada da sala, senão o sujeito
poderia ter me visto. Ele havia articulado alguma coisa, mas não ouvi o que era.
Volto para a cozinha e pela janela basculante vejo que as nuvens alcançaram o
centro de Porto Alegre. Estava noite em plena manha. Na sequencia ouvi o chiar
da chaleira fervendo. Pensei. Nossa! O tempo está voando, então passei o café.
Enquanto saboreava o café me rondava pensamentos de que
precisava concluir os meus compromissos daquele dia. Pois, quando eu me mudar
do apartamento, pelo menos deveria deixa-lo pintado. Era a lei do síndico do
prédio. Passei a ouvir trovoes lá fora. Era um temporal avisando que estava por
vir. Lembrei que o que limpador do para-brisa estava estragado. Eles não
estavam sincronizados e tinha que ir depressa até uma autopeça pra resolver
isso. Esqueci-me de consultar o clima
para aqueles dias, realmente fiquei surpreso com aquele temporal, que de certo
modo iria me atrapalhar um pouco, especialmente a minha viagem.
Substituí minha roupa, peguei um guarda-chuva e peguei o
elevador. Já no térreo, ao acessar a porta que dava para a garagem, seu Otávio se
encontrava ali parado olhando pra mim com cara de poucos amigos.
- Vai viajar Moacir? – perguntou ele com tom estranho.
- Não. Eu vou ate a ferragem orça umas tintas. Mas antes vou
ter que passar numa autopeças substituir o para-brisa, que está quebrado.
- Pois é. Nesse temporal que está vindo, não é seguro ficar
sem esse utensilio. Mas me diz, tu vai se mudar? – Indagou.
-Pretendo. E por isso vou ver quanto vou ter que gastar pra
deixar o lugar hehe – Respondi sorrindo.
-Concordo. Mas, posso estar aposentado, mas nada me evita de
apanhar uns biscates de pintura hehe! – Disse ele rindo.
- Podemos conversar depois. Então até depois seu Otávio! –
Respondi já entrando no carro.
- Até.
Saí do prédio. Olhei para o céu e vi nuvens negras. E
trazendo com elas muitos relampejos. Aquela tempestade seria tensa e perigosa.
Corri então ate a zona norte, no bairro Sarandi numa loja de um amigo de
confiança. Mas ao chegar à loja, vi que estava fechada. Muito deserto na volta
também. Lamentei muito. Então segui pela
Assis Brasil e acabei desembocando em Cachoeirinha. Para a minha sorte bem no
inicio da cidade havia uma loja aberta. Então fiz o serviço com eles. Mal havia
entrado no carro pra voltar pra Porto Alegre e começa a chover.
Estando de volta a Assis Brasil, em meio aquela chuvarada
toda, decido sacar um dinheiro no caixa eletrônico da Caixa Federal onde tinha uma
conta corrente. Sempre era bom ter dinheiro vivo na mão. Parei no
estacionamento do mesmo. Armei o guarda-chuva e entrei no banco e tirei quatrocentos
reais no caixa eletrônico, depois sai dali, porque mesmo sendo 1999. Eu poderia
ser assaltado. As famosas saidinhas de banco já aconteciam daquele tempo. Mas
tudo ocorreu bem.
Mais tarde passei no Tumelero da Assis Brasil. Como o
apartamento tinha em torno de 140 metros quadrados, o vendedor me indicou que
eu deveria usar cerca de três latas de 18 litros cada. O cálculo passou de
seiscentos reais. Eu então resolvi levar uma lata de 18 litros de selador para
dar um fundo nas paredes. Sobraram-me alguns reais na carteira. Pensei, assim
que achar um lugar melhor pra trocar por meu apto aí resolveria comprar o
restante das tintas.
Já se aproximava do
meio dia, decidi almoçar numa das lanchonetes da rodoviária de Porto Alegre. Deixei
meu carro num estacionamento pago bem na frente da estação.
Fiquei num daqueles bares do segundo andar de frente as
docas de embarque da Unesul, no andar superior. A visão era agradável. Havia
muitas pessoas embarcando para diversos lugares do estado gaúcho e catarinense
a passeios, negócios, trabalhos e outros. Solicitei o cardápio do lugar e pedi
um bife a cavalo ao garçom. Cerca de vinte minutos foi a minha espera. Pedi uma
Pepsi bem gelada pra acompanhar. A chuva estava forte ainda e os estrondos
tremiam o ar. Depois de almoçar e pagar pela refeição no caixa, decidi fazer um
passeio pela estação. Olhei vitrines das lojas de suvenir, olhei as linhas das
agencias, olhei as pessoas e depois me retirei do ambiente. Cruzei a avenida
onde ficavam os taxis vermelhos e me dirigi para o estacionamento pegar o
carro. Paguei uma tarifa meio amarga por um pouco mais de uma hora e saí, pois
tinha que me aprontar pra viajar. Decidi que viajaria mesmo com aquele dilúvio.
Quando cheguei de volta ao prédio não vi seu Otavio que
costumava ficar sentado na poltrona do saguão de espera na entrada do edifício.
Subi ao apartamento e deitei-me no sofá um pouquinho pra tirar um cochilo e
apaguei. Estava tão cansado.
Acordei nos quarenta minutos seguintes com alguém bater incessantemente
em minha porta. As batidas eram violentíssimas.
- Calma. Já vou! – gritei da sala. Corri até a porta. Olhei
antes pelo olho magico e vi que se tratava do seu Otávio. Achei que talvez ele
quisesse falar do serviço de pintura que ele queria pegar no apto. Mas, para a
minha surpresa, ao abrir a porta o corredor estava deserto.
Olhei na porta do elevador, mas não havia nenhuma evidencia
de ter sido usado por alguém. Achei aquilo estranho. Decidi então ver na escadaria
atrás da porta corta fogo. Talvez ele tivesse limpando as escadas, pois era seu
trabalho. Ao abri-la e passado para o outro lado da porta, a lâmpada se
ascendeu, desci uns oito degraus ate o descanso. Olhei para os andares abaixo
entre os vãos dos lances da escada e repente alguma coisa sinistra estava pra
acontecer, uma voz humana destorcida ecoa dos degraus abaixo subindo para onde
eu estava. Fiquei neutralizado de medo. Quis fugir e ao me virar para a porta, que
estava a quatro metros de mim, a luz se apaga para piorar a situação. Fiquei
arrepiado dos pés a cabeça. Pois me encontrava na escuridão. E uma figura branca
surgiu flutuando no patamar da escada e começou a se aproximar de mim lentamente.
Parecia ser uma mulher com um longo vestido esfuziante. Tentei puxar a porta,
mas ela estava presa. De repente não conseguia me mexer, pois meu corpo ficou paralisado
e minha voz falhava. Pensei em Deus naquele instante. Foi quando de repente as
lâmpadas da escadaria se ascendem e aquele espectro some com a escuridão.
Alguém havia ligado às luzes em algum andar do edifício pra
largar o seu lixo. Eu tinha sido salvo por um anonimato. Aproveitei a chance pra
sair de lá bem depressa, pois sabia que as lâmpadas da escada iriam apagar em
alguns segundos por causa do sensor de presença com fotocélula.
Depois de passado o susto, voltei rápido para o meu
apartamento. Estava muito nervoso. Minhas mãos estavam tremulas e minhas pernas
estavam anêmicas. Era como se aquilo tivesse absorvido minha energia vital pra
se alimentar. A sensação de medo era horrível. Bebi um copo de água com açúcar pra
ver se me tranquilizava, mas não havia dado certo. Então servi uma dose de
vermute que tinha como enfeite na minha estante.
Passei a mão no telefone e liguei para o apartamento do seu
Otavio. Chamou algumas vezes, mas ele não atendeu. Fui então para o sofá e
pensei no que tinha acontecido. De repente me assustei com o som da campainha
tocando. Apanhei meu taco de sinuca feito com madeira de pinho canadense e me aproximei
da porta. Olhei pelo olho magico e para o meu alivio era o Síndico Luiz. Guardei
o taco e abri a porta.
- Bom tarde Moacir. Sei que não tem nada de bom se levar em
consideração o toró que está caindo lá fora. Vim te trazer essa notificação. A
garagem precisa receber uma pintura nova e a rede de gás tem que ser reformada.
Vote ate terça feira para sim ou não das reformas. – disse ele com cara de
poucos amigos.
- Ok. – agradeci pegando o envelope que ele me estendia.
- Tu viste o seu Otavio por aí? Ele é um irresponsável. Já
venho batendo na porta dele há dois dias. Agora deu pra fazer birra comigo. Só
o que me faltava ter que demiti-lo.
O síndico me disse aquelas coisas se retirou sem ao menos se
despedir e continuou a distribuição das cópias da mesma notificação aos outros
moradores. Muitos moradores não estavam em casa, então o documento era passado
por baixo da porta. Eu não queria concordar com ele, mas infelizmente a garagem
precisava de uma pintura nova. A ultima vez que recebeu tinta foi em 1988,
segundo o seu Otávio. E na questão da rede de gás, nunca tive problemas de
vazamentos no meu apto. Mas, não sei sobre os outros apartamentos.
E por incrível que pareça, a visita do síndico veio a
calhar, pois aquele nervosismo que eu estava sentindo ate a pouco, tinha terminado.
Enfim, sentei-me no sofá de três lugares e abri o envelope. Mas
para o meu desapontamento, a reunião do síndico era para as nove da amanha do
dia seguinte na garagem. Poxa! A minha viagem daquele dia tive que adiar pra
depois da reunião.
Mais tarde desci no térreo e fui ate a porta do apartamento
do seu Otávio, pra falar a respeito da experiência sobrenatural que tive. E
gostaria de ver se sabia de alguma historia que possivelmente teria acontecido
do prédio e se ele havia realmente tocado em minha porta naquela tarde.
Apertei a sua campainha diversas vezes, mas ele não atendeu.
Bati com a mão também, mas sem sucesso. Então um pouco abalado retornei ao
apartamento. Pois, não tinha com quem conversar. Só havia a seu Otávio a quem
recorrer. Já com os outros inquilinos eu não tinha nenhum tipo de relação a não
ser um olá.
Fechei a porta. E nem jantei nem nada. Fiquei pensando, eu
havia conversado com ele naquela manha ainda. Não entendia seu sumiço. Fiquei
um pouco na sala e depois fui dormir. Tinha que descansar, pois depois da
reunião da manha seguinte iria dirigir por quatro horas.
Por precaução deixei as luzes acessas. Fechei os olhos na
intenção de cair no sono, mas estava sendo assombrado pelas lembranças da
mulher na escada e lentamente sendo tomado por uma sensação de terror e
tristeza ao mesmo tempo. Escutei um ruído
estranho na cozinha como se alguém tivesse puxado uma das cadeiras e senti que
alguma coisa estava à espreita só a me observar. Decididamente peguei a minha
pequena bíblia do primeiro testamento que estava na gaveta do bidê e abri em
salmos 91. Deixei-a aberta próxima de mim. Não levou muito e a sensação de medo
estava indo embora. Orei para Nosso Senhor me tirar daquela situação e de repente
aquela emanação maléfica que pairava no meu quarto havia ido embora. Sem dúvida
eu não fiquei mais aterrorizado. Mantive-me quieto e deitado em minha cama. Sem
perceber acabei adormecendo ao som daquela chuva.
No dia seguinte. Nenhum sinal de chuva lá fora. Não liguei o
radio naquela manhã. Pensei. Ótimo. Pois teria uma viagem tranquila. Depois de
tomar café já deixei tudo preparado pra viagem. Larguei a mochila ao lado da
porta de entrada. Dei uma olhada na rua pelas janelas.
Prontamente examinei a minha geladeira e vi que não tinha mais
carne, só tinha presunto e queijo. E na dispensa também faltava tudo, então
tinha que ao supermercado que ficava na rua de trás pra comprar o que faltava. Queria
jantar em casa como o de costume quando não havia problemas. Então saí de meu apartamento e chamei o
elevador.
Enquanto esperava ouço zunzunzuns vindo lá do térreo. Achei um tanto estranho. De repente sinto um calafrio
e ao mesmo instante vejo um vulto sair da porta da escadaria. Estico meu
pescoço na tentativa de ver melhor, tomei um susto, pois era a Dona Olívia fazendo
uma faxina no fim do corredor do meu andar. Fiz um aceno a ela, mas não me viu.
Aquilo me saiu esquisito. Porém antes que eu fosse o seu encontro, o elevador chega
ao andar e abre a porta. Então corro e entro no mesmo, e ao me virar de volta
pra porta de entrada e antes que ela se fechasse levo outro susto, pois a Dona
Olívia passa bem na entrada sorrindo pra mim seguindo com a limpeza. Então a
porta se fecha.
Me pego a pensar do surgimento surpresa dela. Mas, alguns
segundos depois o elevador chega ao térreo. E no abrir da porta, um odor alastrar
o ar puro do elevador. Confuso com aquele mau cheiro, busquei a resposta do que
estava acontecendo, noto os raios de luz do giroflex de uma viatura do IML em
frente à portaria do prédio, o giroflex estava ligado, iluminando tudo. No
corredor que dava para o apartamento da Dona Olívia havia o movimento de muitos
moradores do conjunto, todos estavam usando máscaras e panos em seus narizes, alguns
passavam mal. Andei entre essas pessoas até a porta do apartamento, ouvi o
zunido de centenas de moscas varejeiras e para o meu espanto, caída morta na
sala já em estado de decomposição estava a Dona Olívia. Haviam-na encontrado
naquela manha depois de sentirem o mau cheiro vindo do apartamento.
Eu estava abatido como a maioria dos moradores do prédio.
Ninguém estava acreditando no que acontecera, pois ela era cheio de vida.
Sempre sorridente. Aquilo foi indigesto pra mim. Pois, eu havia falado com ela na
entrada da garagem no dia anterior e há alguns minutos atrás a vi limpando o corredor
do meu andar.
Transtornado, me afastei mal do lugar por também não
aguentar o cheiro de podre. Fiquei afastado e assistindo os policiais isolarem
o local com a fita de segurança para que os peritos realizassem seu trabalho.
Voltei para meu apartamento, havia perdido a fome depois
daquilo. Eu estava confuso por causa das experiências que tive com as aparições
do fantasma da Dona Olívia. Nunca na minha vida tinha tido tal experiência
sobrenatural. Nem acreditava em fantasmas. Será que ela quis me dizer alguma
coisa? Senti um arrepio na espinha quando comecei a lembrar dela. De repente
ouço o som da cortina do Box do meu banheiro ser puxada. Assustei-me. Apanhei um bastão que eu tinha na cozinha, criei
coragem e fui me esgueirando pela parede ate o banheiro. Deparei-me com a
cortina aberta do mesmo jeito que eu a havia deixado. Voltei pra sala um pouco
nervoso com aquela experiência.
FIM
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